sexta-feira, 28 de julho de 2017

A CORRIDA POR ARMAS PESADAS






HISTÓRIAS MAL CONTADAS


 

Carlos Wagner


A corrida por armas pesadas pelas quadrilhas tornou o Brasil um grande comprador do mercado mundial ilegal de fuzis, munições e explosivos.



A corrida por armas potentes para serem usadas na disputa por território e assaltos pelas organizações criminosas brasileiras colocou o Brasil em um lugar de destaque entre os países compradores no mercado ilegal de fuzis, munições e explosivos. A disputa é causada pelo crescimento e pelo aperfeiçoamento das quadrilhas, que é uma consequência do fracasso das políticas de segurança pública, consolidado nos últimos cinco anos.

As principais armas pesadas usadas pelos quadrilheiros são estrangeiras e, a maioria, entra no país pelo Paraguai. Enfileirar números sobre armas ilegais é pintar um quadro irreal para o nosso leitor, chamo a atenção dos meus colegas repórteres, principalmente dos novatos. Mas podemos recomendar ao leitor uma olhada atenta aos relatos feitos sobre o uso de armas por criminosos nos noticiários e nas redes sociais, que estão disponíveis na internet. E também sugerir que conversem sobre o assunto com seus amigos e vizinhos. Dificilmente, alguém não foi vítima ou teve um conhecido que foi assaltado. Nós podemos ajudar o nosso leitor a entender os motivos pelos quais chegamos a essa situação, mostrando como relacionar fatos, que foram publicados de maneira isolada. Mas que, se unidos, eles mostram o caminho que percorremos até aqui, onde um chefe de quadrilha influencia muito mais na vida cotidiana das famílias do que o prefeito da cidade.

Começamos no momento em que o estado brasileiro estava encurralando as quadrilhas. Foi de 1995 a 2011, quando as políticas brasileiras de segurança pública foram modernizadas e reorganizadas pelos governos dos presidentes da República Fernando Henrique Cardoso (PSDB – SP) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT – SP). Aqui, é importante avaliar o seguinte. O bom desempenho do Brasil contra as organizações criminosas no período não pode ser atribuído apenas ao vigor da economia na época. Mas ele deve também ser analisado devido à presença forte do Estado em áreas de conflitos, por exemplo: em 2010, o senador paraguaio Robert Acevedo, do Partido Liberal Radical Autêntico (PLRA) sofreu um atentado à bala nas ruas de Pedro Juan Caballero, cidade do Paraguai separada do Brasil por uma avenida de Ponta Porã, no oeste do Mato Grosso do Sul. Dias depois do atentado, os então presidentes do Brasil, Lula, e do Paraguai, o bispo Fernando Lugo, se encontraram bem próximo ao local onde o senador foi ferido.

Eu estava no encontro de Lula e Lugo e documentei os dois presidentes baterem forte nas organizações criminosas da região. O que acontecia lá? Acossados pela instalação das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) nas favelas cariocas e pela presença maciça da Polícia Militar nas regiões de conflitos nas cidades paulistas, o Comando Vermelho (CV), do Rio de Janeiro, e o Primeiro Comando da Capital (PCC), de São Paulo, fugiram para o Paraguai, onde consolidaram as suas operações. Na época, existia uma rede de troca de informações muito bem articulada entre as polícias brasileiras (Civil, Federal e Militar) com as Forças Armadas sobre tudo o que ocorria nas fronteiras do Brasil com os países vizinhos da América do Sul. Graças a essa rede de informações que as apreensões de drogas, armas e contrabando de cigarros da Polícia Rodoviária Federal (PRF) eram abundantes – os números podem ser encontrados na internet.

Na primeira oportunidade que tiveram, as organizações criminosas voltaram. E a volta não deve ser atribuída apenas à atual crise econômica. Mas há problemas estruturais que não foram resolvidos, como é o caso do sistema penitenciário do Brasil, um dos mais eficientes formadores de soldados para o crime. Atualmente, as facções comandam das cadeias no país – há uma vastidão de informações nos noticiários e nas redes sociais na internet. Aqui, uma coisa importante: um livro-reportagem, “Fronteiras Abertas”, de Rafael Godoi, jornalista, e Sérgio de Castro, analista-tributário da Receita federal. O livro foi editado em 2010, pelo Sindicato Nacional dos Analistas Tributários da Receita Federal do Brasil (Sindireceita) e está disponível na internet. O trabalho é um documento que mostra a situação das carências de estrutura e pessoal nos postos das fronteiras. E o que poderia acontecer no futuro se os problemas não fossem resolvidos nas fronteiras com Uruguai, Argentina, Paraguai, Bolívia, Peru, Colômbia, Venezuela, Guiana e Guiana Francesa. Os noticiários confirmam o que foi previsto.

O livro recomenda que os planos de fronteira sejam feito em parceria entre os governos. Aliás, sobre parcerias, há vários estudos feito pelo Grupo Retis, formado por um prestigiado contingente de cientistas sociais do Departamento de Geografia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Como os governos não fizeram as parcerias, os criminosos as colocaram na prática. Hoje, os bandos que roubam carros no Brasil os trocam por armas e drogas no Paraguai, na Bolívia e na Colômbia. O PCC e o CV estão envolvidos em uma disputa para ocupar o lugar dos guerrilheiros das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), que estão sendo desmobilizados devido ao acordo de paz com o governo. Uma das atividades dos guerrilheiros é a proteção dos cartéis de produção de cocaína.

As organizações regionais, como Os Manos e os Bala na Cara, do Rio Grande do Sul, e a Família do Norte (FDN), do Amazonas, estão fazendo alianças com os atacadistas de maconha do Paraguai. Trocam droga por munição com grupos de varejistas de cocaína e maconha no Uruguai e na Argentina. Enquanto isso, um policial, para prender um bandido do outro lado da fronteira do seu país, precisa percorrer um imenso caminho burocrático. Ou contar com a colaboração pessoal de um colega. Hoje, a questão de segurança pública do Brasil tem como nó o sistema penitenciário. Aliás, eu recebi uma observação feita por um policial da fronteira do Mato Grosso do Sul, que diz o seguinte:

– Agora que os bacanas indo para a cadeia, pode ser que eles resolvam o problema do sistema penitenciário em proveito próprio kkkkkkk. O que acha, Wagner?

Respondi:

– Tem lógica, né?





COMENTÁRIO DO BENGOCHEA - As armas de guerra são colocadas nas mãos dos bandidos devido às penas penas brandas aplicadas pela venda, compra, posse e uso de armas de calibre restrito e as adulteradas; pela porosidade das linha de fronteiras despoliciadas por onde passam as armas, munições e drogas que abastecem o crime dentro do Brasil. As ações de contenção na lei são permissivas; na justiça há muita lerdeza e leniência; na polícia federal há sobrecarga de trabalho e falta de efetivos para o patrulhamento e vigilância das linhas; a execução penal é irresponsável e tem soltado chefes de facções que hoje lideram o crime nas fronteiras; as forças armadas se limitam às operações midiáticas e sem a força do poder de polícia; e os governantes insistem em medidas paliativas usando policiais estaduais para cumprir missão específica federal. 







Alberto Afonso Landa Camargo - Não só pelas penas brandas que as armas são colocadas nas mãos de criminosos, mas também pelo descaso com as fronteiras, abertas e abandonadas, onde deveriam estar a polícia federal e o exército, a primeira por obrigação constitucional e o segundo por obrigação prevista em decreto federal que lhe deu esta atribuição. Estas armas e munições que entram livremente pelas fronteiras abandonadas são os instrumentos que matam policiais, em especial militares, e outras pessoas inocentes. São as que expelem as "balas perdidas" que matam e mutilam crianças indefesas. Chama a atenção que normalmente a culpa da criminalidade é atribuída à falta de policiamento, mas ninguém lembra que a culpa é também de quem deveria estar policiando as fronteiras e não está.

sábado, 3 de junho de 2017

ATACAR OS CRIMES DE FRONTEIRA

Resultado de imagem para delegado Ricardo Andrade Saadi

ZERO HORA 03 de junho de 2017 | N° 18862


ENTREVISTA: Delegado Federal RICARDO ANDRADE SAADI


“Temos de atacar os crimes de fronteira”




Combater lavagem de dinheiro é a baliza da bem-sucedida carreira do delegado Ricardo Andrade Saadi, novo superintendente da Polícia Federal no Rio Grande do Sul. Natural que o combate a esses e outros tipos de delitos de “colarinho branco” sejam sua prioridade na gestão, a primeira de sua carreira chefiando a PF num Estado.

– O Rio Grande do Sul tem peculiaridades como o contrabando e o tráfico, por ser Estado de fronteira, mas vamos dar atenção especial aos crimes financeiros – adianta Saadi, que tomou posse na sexta-feira.

Paulista, 41 anos, o delegado é formado em Direito e Economia e doutor em Direito Político e Econômico. Na sua tese, abordou a destinação dos bens apreendidos com criminosos e a necessidade de agilizar esse processo – inclusive dinheiro enviado à educação de presos –, antes que os objetos apodreçam sem uso.

Saadi é da nova geração de policiais. Ingressou na PF, já como delegado, em 2002 e foi direto trabalhar contra crimes financeiros, em São Paulo, quando o superintendente era o gaúcho Leandro Daiello, hoje diretor-geral da PF. Fez curso no FBI (polícia federal dos EUA) e participou de episódios famosos: prendeu o dono do Banco Santos por lavagem de dinheiro, refez o inquérito da Operação Satiagraha (que capturou o banqueiro Daniel Dantas), investigou lavagem de dinheiro pelo traficante colombiano Juan Carlos Abadia (preso no Brasil e suspeito de mais de cem homicídios) e atuou na Lava-Jato. Nesse último e famoso caso, atuou como chefe do Departamento de Recuperação de Ativos e Cooperação Jurídica Internacional do Ministério da Justiça, onde permaneceu até o início de 2017.

Foi na convivência com policiais gaúchos, em São Paulo, que adquiriu o hábito de tomar chimarrão. E foi entre goles do amargo que recebeu Zero Hora para uma entrevista, realizada na quinta-feira em seu novo gabinete em Porto Alegre. Apesar do gosto pelo mate, não é gremista e nem colorado: é são-paulino, avisou, em meio a sorrisos dos assessores.

Veja os principais pontos abordados na conversa

LIÇÕES DA SATIAGRAHA

“Convivi muito com o Protógenes Queiróz (delegado que prendeu o banqueiro Daniel Dantas por movimentação financeira oculta e, posteriormente, caiu em desgraça na PF – o policial foi condenado e hoje está foragido). Uma das lições daquele episódio é o de saber o momento certo de deflagrar uma operação e ter elementos concretos. Não se pode agir com pouquíssimas provas. Baseado apenas em um HD apreendido, por exemplo. Aprendemos muito com aquele inquérito, conseguimos coisas boas.”

RASTREAMENTO DE DINHEIRO SUJO

“Antes dos anos 2000 não existia o Cadastro Único dos Correntistas do Banco Central. Quando precisava saber onde alguém tem conta, mandava um ofício para cada instituição financeira e esperava meses, por exemplo. Hoje, graças a convênios entre instituições de controle do sistema financeiro, consigo a informação na mesma hora. O mesmo acontece com a quebra de sigilo bancário: antes eu trabalhava numa sala recheada do chão ao teto por planilhas Excel com extratos de contas. Agora recebo isso online e, mediante determinados programas, identifico padrões de saque bancário do suspeito, remessas, etc. A PF, aliás, tem laboratórios técnicos de lavagem de dinheiro, um deles montado por iniciativa própria no RS e equipamentos comprados.”

COOPERAÇÃO INTERNACIONAL

“A legislação determina que o dinheiro de lavagem só seja devolvido após trânsito em julgado (condenação do réu em última instância). Mas ocorreram duas mudanças, para melhor. A primeira é que, via colaboração premiada, delatores têm autorizado por escrito ao governo a devolução de dinheiro que eles mantêm no Exterior (Pedro Barusco, ex-gerente da Petrobras, devolveu US$ 100 milhões mediante acordo). A outra é que os próprios países onde o dinheiro foi colocado têm aberto investigações contra os criminosos brasileiros que lá escondem o fruto do desvio da verba pública. É o caso de dinheiro desviado por um juiz durante a construção do Tribunal Regional do Trabalho (TRT) paulista e da Operação Anaconda (venda de sentenças por parte de outro magistrado). A Suíça abriu processo contra os brasileiros envolvidos e devolveu parte do dinheiro lavado em seus bancos pelos criminosos, antes de os processos no Brasil serem finalizados. Isso foi impulsionado pela cooperação internacional, sobretudo após os atentados de 11 de Setembro de 2001 (em Nova York).”

META PARA O RS

“Nosso objetivo é manter o ótimo trabalho que tem sido feito. O Estado tem peculiaridade de ter muitas fronteiras, então temos de atacar todos os crimes típicos de fronteira, como tráfico de drogas, tráfico de armas e contrabando, e dar atenção especial aos crimes de desvio de recurso públicos, crimes financeiros e de lavagem de dinheiro. O Rio Grande do Sul foi o Estado que mais operações da PF teve em 2016: 71. Queremos manter a performance e, para isso, pedimos um estudo de efetivos policiais, para direcioná-lo aonde for melhor.”

LAVA-JATO NO RS

“Está chegando em novo estágio em que os procedimentos estão sendo distribuídos a diversos Estados. O Rio Grande do Sul, assim como outros Estados, vai receber esses procedimentos. Nós temos uma equipe extremamente qualificada, que está pronta para resolver essas investigações da melhor forma possível.”

REFLEXOS DA LAVA-JATO PARA O PAÍS

“Está sendo extremamente positiva. Tem demonstrado que as instituições brasileiras funcionam, a Polícia Federal, o Ministério Público, a Receita Federal e outras. As delações geraram uma demanda exponencial de investigações. E tem sido positivo para o país ver esse trabalho.”

domingo, 12 de março de 2017

FRONTEIRA AMAZONICA VIRA PASSAGEM LIVRE DE DROGAS







FOLHA.COM -  Fronteira amazônica vira passagem livre de drogas com presença de facção

FABIANO MAISONNAVE
ENVIADO ESPECIAL A TABATINGA (AM)12/03/2017 02h00




O massacre de dezenas de presos protagonizado pela facção criminosa Família do Norte (FDN) em Manaus, no Ano-Novo, gerou uma onda de mortes e tensão em diversas penitenciárias do país.
Mas, na principal porta de entrada de cocaína para o Norte e Nordeste, o presídio local permaneceu quieto, sob controle dessa mesma facção.

Em Tabatinga, cidade de 62 mil habitantes na tríplice fronteira com Peru e Colômbia, autoridades policiais e judiciais admitem que a FDN comanda tanto o presídio quanto o fluxo de drogas para o Brasil, um negócio que movimenta R$ 5,7 bilhões por ano, segundo estimativa do governo do Amazonas.

"Se a Família do Norte, a única facção que domina aqui, decidir que precisa haver algum incidente em Tabatinga, esse incidente ocorrerá", afirmou a juíza estadual Danielle Monteiro, na cidade há um ano e cinco meses, durante um encontro para discutir a segurança pública com representantes militares, policiais e judiciais.

A forte presença da FDN em Tabatinga, pelo menos desde 2014, é o mais novo capítulo de quase quatro décadas de narcotráfico na região, período em que se tornou a principal atividade econômica da fronteira.


A história começou no início dos anos 1980, quando a chamada região do Trapézio Amazônico se tornou um importante corredor da coca peruana à Colômbia (da era Pablo Escobar) para o refino e envio aos EUA.

Em meados dos anos 2000, houve mudanças importantes. A Colômbia, com financiamento americano, conseguiu retomar o controle da maior parte do território, como a região fronteiriça, e reduzir a violência.

No lado peruano, uma nova tecnologia permitiu o cultivo e o processamento da coca na umidade amazônica a partir de 2006. E o Brasil, antes de importância marginal, passou a ser o principal destino da droga produzida e transportada na região da tríplice fronteira.

Apesar do desafio logístico -o acesso à tríplice fronteira se dá apenas por avião ou barco-, o narcotráfico se beneficia da economia informal, da intensa circulação de pessoas entre os três países, das diversa rotas fluviais disponíveis, da ausência do Estado no lado peruano e de grandes falhas de fiscalização no território brasileiro.

Unida à colombiana Leticia pela fronteira seca, Tabatinga vive na informalidade. Sem Detran, cerca de 90% das 15 mil motos que circulam pela cidade não têm nenhum registro, segundo a Polícia Militar.

Na Justiça estadual, tramitam em Tabatinga 2.752 processos criminais, com 751 condenações, em uma cidade em que o presídio tem capacidade para 108 pessoas.


INSUFICIÊNCIA


Integrantes das equipes de segurança brasileiras na região da tríplice fronteira reconhecem sua insuficiência diante do aumento da criminalidade organizada.

O principal posto de fiscalização fica em um trecho do rio Solimões a cerca de 40 km de Tabatinga. Trata-se de uma força multitarefa, com a presença permanente de 33 pessoas, entre PMs, soldados do Exército, policiais civis e agentes da PF, responsáveis pela coordenação.

A principal tarefa ali é uma minuciosa inspeção em todos as embarcações que descem o rio na direção de Manaus. Mas a base, estática, é facilmente contornável pelos braços de rio ("furos"), principalmente na cheia.

Além disso, a presença da base deslocou o narcotráfico para outros rios que vêm da Colômbia e do Peru, principalmente o Içá, hoje o principal corredor.

No dia em que a reportagem da Folha visitou a base, a balsa do Exército, que deveria ficar na outra margem, estava anexada à da PF por falta de combustível para o gerador elétrico. Tampouco havia barcos blindados de patrulha: o único que a PF mantém na região estava parado havia um ano.

"A gente teria de ter duas embarcações blindadas e um maior efetivo policial", disse o agente da PF Rosimar Sena, em entrevista na base Anzol. "São muitos 'furos', tem de dar sorte de estar passando na hora certa. Mas aqui se pega o mínimo de droga."

Das 3,5 toneladas de cocaína apreendida pela PF no Amazonas no ano passado, 600 kg foram confiscadas na região de Tabatinga.

"A base Anzol, para quem é do mundo criminoso, não deixa de ser motivo de piada", disse o comandante da PM em Tabatinga, Huoney Herlon Gomes. "É boa como presença do Estado, mas inócua como ação efetiva."

Editoria de arte/Folhapress